terça-feira, 23 de junho de 2009

Fim de um reinado de paz, harmonia, prosperidade, democracia e homicídios premeditados.

Hoje eu desço do trono aqui no Principado da Quinta Los Pinos. O chefe volta. Foram quarenta dias de reinado cheios de amor, paz, prosperidade e candidatos a visto mortos pendurados no mastro da bandeira como forma de punição exemplar por exigir que eu venha assinar papel nos domingos.

No meu governo, eu enchi o Departamento Cultural de pedidos de dinheiro para nossa programação local; visitei três prefeituras que me pediram bolas e uniformes de futebol e que me garantiram que torcer contra o Brasil na Copa dá cadeia; fiz meia aula de capoeira; assinei visto que não acaba mais, entre eles para a Seleção de Futebol da Nicarágua, que foi treinar durante mais de mês no Rio de Janeiro; fui mil vezes fazer gestões por votos em organismos internacionais e fiquei amigo de metade dos funcionários da Direção-Geral correspondente no ministério local; participei de reuniões sobre: alimentação escolar, produção agrícola orgânica, combate à fome, prevenção de catástrofes, segurança pública e gestão de recursos hídricos; criei um currículo de Literaturas de Língua Inglesa para a Universidade onde dou aulas; criei um currículo de Linguística para um mestardo na mesma universidade; em parceria com a leitora brasileira, criei um curso de formação de professores de português para essa Universidade aí; distribuí paçoquinha e caipirinha; fui ver 5 filmes franceses, um colombiano, um equatoriano, um argentino e um chileno, representando a Embaixada em festivais de cinema; e mais algumas coisas.

Tirando os mortos e os feridos graves, todos os demais estão só com ferimentos leves e traumas psíquicos profundos. Eu sou um governante bondoso, de fazer inveja ao Pinochet.

E agora acabou, e eu posso, gazadeus, voltar pro parquinho.

domingo, 21 de junho de 2009

"O balão vai subindo, vai caindo a tempestade..."

Os brasileiros com saudades organizaram uma festa junina ontem, no Corcovado, único bar brasileiro de Manágua (até onde dá, né, considerando que já não se vende mais nada de produtos brasileiros nos supermercados, e que guaraná é mais raro que qualquer coisa aqui). As mulheres dividiram as tarefas de fazer comidinhas (o Carlos ia achar super binário), e prepararam curau, bolo de mandioca, caldo de frango com mandioca, cachorro quente, maçã do amor e umas coisas que eu nunca tinha visto na vida, pra você ver como é possível uma pessoa ser tão estrangeira em sua própria terra.

Aí estavam os funcionários da Embaixada e amigos brasileiros e nicas desses funcionários. E era engraçado ver como era fácil distinguir uns dos outros: brasileiros rindo, dançando e fazendo barulho, nicas com a cara-básica-de-nicaraguense número 1. Ou seja, cara de que não gosta de você. Todo mundo na estica e eu de bermuda. O cônsul lançando tendência...

Só não tinha muita música de festa junina. Estava rolando essas coisas modernas apagodadas, assambadas, aforrozadas, música que eu nem escutava no Brasil. Só que aqui não incomoda. É o que tem, e eu estou com saudades do Brasil, então tá bom.

Aí choveu. Muito. Bem na hora que eu, morto de sono (9:30PM), estava saindo pra voltar a pé pra casa. Apesar de aqui ser hemisfério norte, esta estação, a das chuvas, é chamada também de inverno. E chove horrores, uma chuva assim de balde que não serve pra esfriar o clima, pelo contrário, o calor fica de assar bode. Ou melhor, o calor fica de cozinhar bode ao vapor.

Por isso que a festa junina oficial foi extinta: ela dava prejuízo, todo mundo se esforçava para deixar a festa bonitinha e a chuva levava tudo. E como havia poucos brasileiros, a festa junina com os alunos do Centro Cultural era meio desanimadinha, com um monte de jovens usando a cara-de-nicaraguense número 1...

Só que foi legal, estimulou a memória de quermesses na Paróquia da Santa Teresa de Ávila. Numa delas, em 1985, eu perdi meu primeiro dente de leite, mordendo um espetinho de carne. Meu primeiro beijo também foi numa festa junina. E o frio que faz em Campinas nessa época combina mesmo com quentão (aqui foi um nica que estudou no Brasil que fez, e ele veio todo animado com o quentão dele que era, na verdade, vinho quente, mas eu não tive coragem de dizer...).

sábado, 20 de junho de 2009

Se eu não tivesse superego, eu diria...

(e o pior, é que às vezes ele falha, e coisas parecidas são ditas... só pra eu ficar arrependido & deprimido depois)


Bolsa de estudo pra quem chega de carro na escola? Claro que tem, meu bem. Mas é só pra gente bonita. Vaza.

Que é isso, menino, precisa de projeto de pesquisa pra fazer mestrado não! Cê acreditou na regra que tá aí, bobo? Ó: pode entregar só o xerox da tua carteira de identidade, viu? O sorteio da vaga é pela Loteria Federal, teu número de rg já tá concorrendo!

Eu até podia dar o visto pra você agora mesmo, já que você tem que estar no aeroporto daqui a 20 minutos e ainda nem preencheu o formulário. Pena que eu não fui com a tua cara.

Se as aulas de português são em português? Não, não. São em esloveno. A gente gosta de metodologias alternativas aqui.

Cê acha três anos muito? E que língua você aprendeu em um ano nessa vida? Porra, nem espanhol você sabe falar direito!! Senta aí quietinho e vai estudando que em 2034 a gente te dá o certificado.

Convite pra festa da independência? Pra quê que eu vou te dar um convite?? E eu lá quero estragar a minha festa???

Tua cidade tem 20 times de fultebol e 2.500 habitantes? Tem certeza que o futebol que vocês jogam é um com bola, gol, essas coisas?

Eu não te convidei pra exposição? Oh, desculpe. Mas é que você não ia entender nada, mesmo. E, ó, nem teve comida, viu? Você não ia gostar...

Passagens aéreas grátis pra ir pro Rio de Janeiro? SONHA, Alice.

Ah, por que é que eu não fui na tua exposição? Porque só tinha merda exposta, eu não ia perder meu tempo, né?

Ah, você quer mulata sambando? Então faz aí uma revolução comunista que eu quero ver.


E olha, pessoal, esse meu trabalho não tem NADA a ver com glamour, ok? Não insistam, não me façam ser grosseiro...

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Malvadezas

1
Uma representação diplomática daqui está indo embora porque o país que representa virou fumaça e afundou de volta pra Dorsal Atlântica. O que é que eu pensei primeiro? "Bem feito".

2
Mas estou começando a concordar com as suecas quando elas não deixam abrir a porta pra elas. Pelo menos pro caso de uma velha que ficou lhando na minha cara esperando que eu, que na verdade estava distraído, não politizado, o fizesse. Quer cavalheirismo? Quer que eu abra a porta? Então lave minhas cuecas. Mostre um pouco de damismo.

Pena que eu vou estar morto quando o mundo for moderno de verdade.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

En el gimnasio

Fiz 30, e resolvi dar um trato na lataria, criando o Programa Panza Cero. Isso foi em setembro. Como em todo programa qualquer coisa Cero ou Zero, as coisas caminham devagar. Comecei a fazer ginástica há 4 meses. Teve de ser na academia mesmo, aqui é meio fraco de espaços exteriores para esportes bacanas. Na verdade, tem muita trilha pra fazer, eu até vou bastante a elas, mas, quem me dera não trabalhar pra passar a vida fazendo isso!


Academia aqui é mais enquadrada no lugar dela: chama Gimnasio, ou seja, ainda não terminou o primeiro grau. Não dá mestrado, que nem a Cia Athletica no Brasil. E essa uma a que vou é a segunda mais fodástica da cidade, e custa US$ 40,00 por mês.


Aí que estou malhando. Escolhi pra instrutor um que tivesse perna grossa. Só tinha um mesmo, o resto é Johnny Bravo. Não quero ficar assim. Ate aí, malhar no meio de Johnny Bravos, as máquinas de tortura, música péssima, isso tudo é a mesma coisa, nada de especial sobre malhar na Nicarágua. Mas tem outras coisas.


A tecnologia de revezamento nas máquinas não é completamente dominada por aqui. Alguém vem e diz "alternamos"? E isso significa: "vou tomar de você, tá? não reclama , não". E o pessoal todo adora fazer exercício em 5, 6, 7 máquinas ao mesmo tempo, deixando em cada uma o celular, a garrafa de bebida, a toalha, a dentadura. E reclama se você tira. Eu tenho uma teoria pra explicar isso. É que a densidade demográfica da Nicarágua é de 39/km2. Eles não sabem lidar com superpopulação.

A música ambiente é salsa e reggaeton. Say no more. Sem iPod não dá.

Você está lá malhando suando quase morrendo e respirando em dobro, aí passa a faxineira com o lampazo (esses esfregões de mecha de pano, apelidados pela Letícia de oompa loompas) e limpa o chão pertinho de onde você está, e todo o fabuloso, que é o pinho sol deles, vai parar nos mais escuros alvéolos. A gente também senta no vidrex, porque a limpeza dos assentos é obsessiva. Ainda bem que vidrex cura tudo.

O bom é que, embora haja Johnny Bravos, os nicaraguenses não me parecem muito obcecados com ginástica e essas coisas. O clima é mais leve que na Real Academia de Alta Malhação Master 24h, muito mais leve. Deu até pra perder 15 kg já...

domingo, 14 de junho de 2009

Breakfast at Siman*


Not for the faint at heart.

O básico é o gallo pinto, que é uma espécie de baião de dois, feito de arroz com feijão vermelho. Só que as pessoas cozinham arroz e feijão para dois ou três dias, guardam na geladeira, e, na hora de servir, misturam um com outro, mais alho, cebola e coentro e FRITAM tudo. A tortilla de maíz (feita de farinha de milho branca, a Maseca) sempre vem junto. A tortilla é feita na chapa besuntada de óleo. Os fogões mexicanos vendidos aqui, aliás, vêm já com a plancha. Ou seja, praticamente frita. Os outros acompanhamentos vão aumentando de acordo com a renda familiar, mais ou menos nessa ordem: queijo frito, ovo frito, linguiça frita, banana frita. Quase sempre tudo isso vem com um pote de leche agria, o sour cream.

A banana pode ser o maduro frito, ou o plátano, aquela bananona verde, na forma de tajadas (banana chips, cortada no comprimento) ou de tostones, cortada em pedaços maiores e amassada à medida que se vai fritando. E ainda tem a variação tostones con queso. O queijo, quem já adivinhou o fez errado, não vem frito, mas fresco, em pedacinhos presos com um palito sobre os tostones.

Ainda existe a possibildade do nacatamal, que substitui tudo ou complementa, depende do barrigão do comensal. O nacatamal é uma massa amarela de milho, que é enrolada com tomate, pimentão, cebola, arroz, carne de porco, frango e linguiça (os três, um, ou qualquer combinacão de dois), tudo numa folha de bananeira tratada para isso. O pacotão é cozido, então.

Empurra-se tudo isso com café e/ou algum fresco, que são os refrescos feitos de coisas torradas e moídas. O fresco de cacao, por exemplo, leva chocolate, arroz e milho em pó, dissolvidos no leite.

Eu como se desayuno uma vez na vida e oua na morte, e só quando acordo depois das 11.



* Siman é uma loja de departamentos que está em todos os shoppings da cidade. Como a Tiffany's, não serve café da manhã.

Tirado com a mão

De repente, parece que alguém desligou o instrumento de tortura, que antes estava ligado todo-dia-o-dia-inteiro. Não foi remédio, não foi conversão esotérica, nada disso. Foi que nem quando a televisão fica ligada no vídeo mas o tocador de DVD está desligado, e sobra aquele ruído uínnnnnnnnnn, que vai enlouquecendo a gente. Até que alguém tem a iluminada idéia de desligar.

Foi assim. De repente, não dói mais, e as coisas desgradáveis viraram fatos, e pronto. A irritação não faz mais a cabeça doer, e eu não quero mais sair no primeiro avião... Está tudo bem, de repente, e eu tenho mais tempo, muito embora ande mais ocupado do que antes.

Nunca pensei que seria assim, tão simples, tão sem os efeitos especiais de um milagre.

sábado, 13 de junho de 2009

Balança mas não cai

De repente pareceu que uma onda havia passado debaixo de casa. As coisas balançaram wakowakowako que nem adereço de carro alegórico. Lembrei-me desses exercícios que dava em aula de inglês-para-engenheiros lá em Campinas, a terra inerte, "what were you doing at 8 am when the earth trembled?"

I was reading a book, in my underwear. Bateu um desespero, medo de ser encontrado só de cueca, sob os escombros.

Parou. As coisas não tinham caído das estantes, nada se quebrou, e as gatas continuavam - como é possível? - dormindo. Pus jeans camiseta e all star vermelho e desci. Os porteiros estavam do lado de fora, conversando normalmente. Alguns carros estavam com os alarmes disparados.

Perguntei se lo sintieron ustedes? El temblorcito?, foi a pergunta-resposta.

Nenhuma casa caída. Nenhum morto, nenhum ferido. Meia hora sem internet, só. 4,9. Aparentemente, 4,9 não matam, só fazem cagar nas calças. Tomara que eu não sinta nada mais forte. Na verdade, pensando no que gosto daqui, tomara que nada mais forte atinja a Nicarágua nunca mais...