terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Voy de táxi!

Passada a raiva, a tarefa de contar história fica mais fácil. Ainda não saí da casa, mas já negociei outro lugar (um hotel, dessa vez, porque aí eu fico sem contrato e ninguém enche meu saco), e posso pensar em contar tudo o que está atrasado.



Aqui tem esse taxista, o Arelis, que é um achado. Foi assim: depois que dois taxistas me chamaram de "cerdo capitalista" porque eu não quis pagar 25 dólares numa corrida que valia 25 córdobas (1.75 dólares), e depois de encontrar um taxista que não sabia onde é que ficava, o aeroporto, a gente passou a telefonar pra sempre um mesmo, que é uma figurinha. Táxi aqui é meio que um problema. Transporte público, na verdade, é coisa que não existe nos padrões que a gente imagina. Os ônibus são esses Blue Bird americanos, doados ao país nos anos 70. Alguns ainda têm escrito "School Bus", mas a maioria foi repintada e redecorada. Alguns são até bonitos. Mas é bem terrível ter 1,81m (imaginem o Carlos com 1,88m, então) e ter de sentar com mais uma ou duas pessoas onde antes se sentavam duas ou três crianças americanas de uma época em que os americanos ainda não eram nem tão grandes e nem tão gordos... Esses ônibus servem também pra viagens de longa distância, e como não vão tão cheios como aqui dentro de Manágua, dá pra usar. E é divertido, até porque depois a gente, já acostumado com os chicken buses, e por isso meio blasé, fala: "viajei nesse ônibus" pros amigos brasileiros, e eles respondem: "uuuia", e fazem cara de admiração.


Mas táxi tem que ser com indicação, ou só em alguns lugares menos visados por assaltaxistas. E aí temos aqui o Arelis. Ele estuda português aqui no nosso Centro Cultural, e faz questão de falar português no telefone, quando a gente o chama. Isso dele falando português no telefone às vezes, só às vezes, dá zica, mas zica pequena. Mas ele está aprendendo o nosso idioma, e ao mesmo tempo serve de guia praquele espanhol que a gente não aprende no Instituto Cervantes. 52,8% dos papos que temos com ele durante as corridas são sobre os dois idiomas.

A gente acaba aprendendo alguma coisa de nicaraguês com ele. Por exemplo, "quedar de goma" é estar de ressaca. A aplicação do termo é o outro taxista, o Roberto, que arrenda o outro carro do Arelis e às vezes faz as corridas pra gente: "Roberto no vino a trabajar porque quedó en casa de goma". Além de quedar de goma, o outro taxista atrasa infernalmente...


A gente também aprendeu que eles usam a palavra "simpático" meio que como sinônimo de "guapo". Ou seja, cantei sem querer um monte de gente. Ou, pior ainda, chamei um monte de bacalhau de bonito.


Uma comida "fea" significa que é uma comida ruim. Não que está mal apresentada. Daí a Letícia e o Carlos foram ao aniversário de um artista plástico bicho-grilo que fez essas maçarocas de capim com mel e chamou de bolo. Perguntada sobre o que achou do bolo, ela disse que estava "feo pero sabroso", e criou um paradoxozinho muito divertido pra eles, nicaragüenses.


A língua não causa muito problema. E os que causa, nem sempre o Arelis resolve. Eu estranhei no começo a quantidade de "pues" que eles falam. O problema não era com o pues, mas com o som. Eles falam "pueh", com uma leve aspiração no final. E pra mim isso ficou sendo interjeição denotativa de nojo. Tipo, sei lá, "puah", se é que isso existe. E aí eu pensava: "que gente esquisita".


Outra esquisitice é o "como no". "Como no" significa "claro que sí", e é uma forma simpática. Mas em português não, pelo menos não nas minhas memórias. É meio uma coisa indignada, não é? Imagino um diálogo, na loja, que é quando isso acontece aqui:


- Você tem atadura de gaze?
- Como não? Tu é besta é? Não tá vendo que isso aqui é uma farmácia? Claro que tem gaze, jacu!


Tem mais. Mas fica pra depois.

3 comentários:

Anônimo disse...

Morri de ri!!! Muito legal.

k disse...

sabrosos!11!

Anônimo disse...

Quando vem ao Brasil? Vai passar o final de ano aí?